Mudam-se os tempos
“mudam-se os tempos…”, uma amiga disse-mo assim, em tom de reflexão, ou pelo menos foi logo isso que ficou em mim. Esta frase disse-me algo e pôs-me a pensar… a pensar sobre as últimas semanas, em que temos sentido o impacto das alterações climáticas: ventos e chuvas fortes, inundações, estragos e condicionamentos à nossa normal circulação. O tempo meteorológico entrou-nos pela casa dentro, literal e simbolicamente. E, de repente, o tempo cronológico ficou em suspenso: as nossas agendas alteradas, consultas adiadas, compromissos cancelados.
Mas o relógio continua a contar, embora a vida assuma outro ritmo.
Cada vez mais sinto que vivemos presos ao tempo cronológico, o tempo do relógio, das coisas marcadas, das notificações que nos relembram tudo e mais um par de botas, dos prazos! É o tempo que mede tudo, que organiza o nosso dia e o nosso trabalho. É o tempo que nos dá estrutura. Mas no entanto, este não é o único tempo que existe.
Há também o tempo meteorológico, que não controlamos. Que chega sem pedir licença e que nos recorda que somos frágeis perante forças maiores. Bem, e talvez exista ainda um terceiro tempo: o tempo vivido. Aquele que não cabe no relógio.
As alterações climáticas globais e instabilidade climática que originam, tornou-se uma presença concreta no nosso dia-a-dia. A ciência vai-nos dizendo claramente que o aumento da temperatura média do planeta intensifica fenómenos extremos e o padrão global aponta para maior frequência e intensidade destes eventos. E, no entanto, apesar desta consciência crescente, continuamos a viver como se o tempo fosse infinito.
Até hoje, não houve outra época com tantos dispositivos para poupar tempo e de uma forma geral penso que nunca nos sentimos com tão pouco tempo como nos queixamos hoje em dia..
É irónico. Heidegger falava do ser humano como um ser-no-tempo. Não apenas alguém que tem tempo, mas alguém que é tempo. A nossa existência não acontece dentro do tempo como um objeto numa caixa; ela é temporalidade. E quando ignoramos isso, quando vivemos apenas em modo de urgência e de produtividade, afastamo-nos da experiência autêntica do viver. Nem temos de nos esforçar muito para que isto aconteça… a verdade é que o tempo cronológico nos organiza, mas é o tempo vivido que nos dá sentido.
Mas, quantas vezes dizemos que não temos tempo para aquilo que é importante? Quantas relações/ compromissos, afazeres, ficam adiados? E depois, quando o vento sopra mais forte e a chuva é tão intensa que se faz ouvir dentro de casa, o que mais desejamos é estar em casa, a salvo, com quem amamos.
Se isto não é viver em tensão… a tensão constante de controlar o tempo. Talvez com tudo isto eu queira só interiorizar que “mudam-se os tempos” não deve ser apenas uma constatação. Talvez esteja mesmo a escrever para me ajudar a interiorizar que “mudam-se os tempos” deve tornar-se num convite, para mudar algo.
Mudar a forma como ocupamos os nossos dias, mudar a forma como priorizamos as coisas, mudar a forma como como Seres no Mundo e em cada um de nós.
Este sim parece-me um importante desafio, reconfigurar prioridades. Questionarmo-nos “que tempo estou a viver?” e também podermos pensar sobre o que aconteceria se nos permitissemos a mais tempo de presença, de escuta ou até de silêncio ?
O relógio não pára, mas o modo como escolhemos vivê-lo, esse é o nosso ritmo e talvez seja nesse lugar que começa uma verdadeira mudança.
Com carinho,
Sara